O Secretário-Geral da Associação Automóvel de Portugal (ACAP), Helder Pedro, foi convidado a participar em vários meios – TSF, RTP1, NOW e Porto Canal - para analisar o impacto do conflito no Médio Oriente, em particular a guerra no Irão, no sector automóvel. O convite surge no contexto da representatividade da ACAP e do seu conhecimento aprofundado sobre a indústria automóvel, num momento em que as tensões geopolíticas internacionais voltam a colocar pressão sobre o sector.
Durante as intervenções, Helder Pedro sublinhou que a indústria automóvel enfrenta actualmente um conjunto de desafios que se acumulam aos verificados nos últimos anos. Recordou que, após a pandemia, o sector foi fortemente afectado pela crise dos semicondutores e pelas perturbações nas cadeias de abastecimento, a que se juntam agora novas tensões geopolíticas e a crescente concorrência internacional, nomeadamente no mercado dos veículos eléctricos.
Segundo o responsável da ACAP, o actual conflito no Médio Oriente está já a provocar efeitos relevantes, sobretudo ao nível do aumento do preço do petróleo e dos custos da energia. Estes factores têm impacto directo nos custos de produção da indústria automóvel, uma vez que tanto o petróleo como o gás natural desempenham um papel fundamental nos processos industriais. Acresce ainda o aumento dos custos logísticos, numa indústria globalizada em que veículos e componentes circulam entre diferentes países e continentes.
Helder Pedro referiu igualmente que as perturbações na região poderão afectar cadeias de produção associadas a matérias-primas essenciais para o sector, como o alumínio e os plásticos, cuja produção depende em grande medida da indústria petroquímica. A destruição ou interrupção de infra-estruturas industriais e energéticas poderá prolongar a instabilidade nos mercados energéticos, mesmo que o conflito termine a curto prazo.
A par deste cenário, alertou para possíveis efeitos na procura. O automóvel representa, para muitas famílias, o segundo maior investimento depois da habitação, pelo que períodos de instabilidade económica tendem a levar os consumidores a adiar decisões de compra. Ao mesmo tempo, tem-se verificado uma intensificação do debate em torno da transição energética e da electrificação do parque automóvel, com alguns consumidores e empresas a reconsiderarem a adopção de veículos eléctricos face à volatilidade dos combustíveis fósseis.
Apesar dos desafios, o responsável da ACAP destacou a capacidade de adaptação da indústria automóvel, lembrando que se trata de um sector com mais de 140 anos de história e que tem demonstrado grande resiliência perante sucessivas crises. Ainda assim, reconheceu que o contexto actual, marcado pela transição para a descarbonização, pela concorrência global e pelas tensões geopolíticas, poderá implicar processos de ajustamento e reestruturação em várias regiões, em particular na Europa.
O sector automóvel assume um papel central na economia portuguesa, com 45,8 mil milhões de euros de volume de negócios, 9,3 mil milhões de euros em exportações e 176 mil trabalhadores distribuídos por mais de 37 mil empresas. O sector gera ainda 11,8 mil milhões de euros de receita fiscal anual, representando 19,4% das receitas fiscais do Estado.